quarta-feira, 9 de maio de 2018

A máquina do mundo



...É como se eu percorresse vagarosamente uma estrada vazia ao entardecer

E ao final da tarde, o som de um sino rouco se misturasse ao som de meus passos

E as aves pairassem no céu de chumbo, com suas formas negras

E se fossem lentamente diluindo na escuridão maior vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado

A máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper  já se esquivava
E só de o ter pensado, arrepiava

Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro, nem sequer um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na contínua e dolorosa observação do caminho e pela mente já cansada de mentar.

Apresentou-me uma realidade que transcende a sua própria imagem, debruçada no rosto dos abismos, do mistério.

Abriu-se em calma pura, convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de tanto os usar já os perdera e nem desejava recobrá-los ...

Já que em vão e para sempre repetimos os mesmos roteiros tristes e travessias infames, convidando a todos a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas...

Livre adaptação parcial de "A máquina do mundo" de Carlos Drummond de Andrade

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sinta-se a vontade!

O Cristão e a política se misturam?

Política pode ter dois significados. Um deles é a arte de negociação para alinhar os interesses; o outro significado, que nos interess...