E ao final da tarde, o som de um sino rouco se misturasse ao
som de meus passos
E as aves pairassem no céu de chumbo, com suas formas negras
E se fossem lentamente diluindo na escuridão maior vinda dos
montes e de meu próprio ser desenganado
A máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava
E só de o ter pensado, arrepiava
Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que
fosse impuro, nem sequer um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas
na contínua e dolorosa observação do caminho e pela mente já cansada de mentar.
Apresentou-me uma realidade que transcende a sua própria
imagem, debruçada no rosto dos abismos, do mistério.
Abriu-se em calma pura, convidando quantos sentidos e
intuições restavam a quem de tanto os usar já os perdera e nem desejava
recobrá-los ...
Livre adaptação parcial de "A máquina do mundo" de Carlos Drummond de Andrade

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