— De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente
combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro,
o de nascença, não teria condições de resistir.
Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação
sigilosa foi ignorada pelos repórteres e fofoqueiros de plantão.
Eu mesmo fabriquei
meu coração novo, sem ajuda em lugar secreto. E o pus sobre o antigo.
Minha capacidade de resistir à dor física sempre foi
praticamente ilimitada, desde criança mas dores morais, as dores alheias, as
dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram.
Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui
dormir.
Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome,
guerra civil, crianças sofrendo abuso, a crise econômico-financeira, soldados,
explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente na faixa de
Gaza, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti
absolutamente nada.
O coração funcionava a contento.
E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono,
igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.
Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e
desempenhava bem a função.
Assisti impassível a cenas que antes me causariam dor ou
tristeza infinita.
Felicitei-me pela excelência. E pelo perfeito funcionamento
de meu novo coração.
Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante.
Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei
a sentir reflexos de moléstias inexistentes.
Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga
aberta.
Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante
semanas.
Meu corpo tornou-se
frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas,
fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas
imotivadas, gratuitas.
Meu coração 2 passava
pela radiografia sem ser percebido.
Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo.
Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito.
Ao tocá-lo, as partes
se descolaram. Inútil restaurá-lo.
Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei a incisão
novamente.
Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está
rateando.
Que fazer? E vale a pena fazer?
A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.
Carlos Drummond de Andrade, adaptado.

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