quarta-feira, 9 de maio de 2018

Substituto




— De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinados, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir.
Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres e fofoqueiros de plantão.
 Eu mesmo fabriquei meu coração novo, sem ajuda em lugar secreto. E o pus sobre o antigo.
Minha capacidade de resistir à dor física sempre foi praticamente ilimitada, desde criança mas dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneraram.
Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir.
Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome, guerra civil, crianças sofrendo abuso, a crise econômico-financeira, soldados, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente na faixa de Gaza, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada.
O coração funcionava a contento.
E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.
Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função.
Assisti impassível a cenas que antes me causariam dor ou tristeza infinita.
Felicitei-me pela excelência. E pelo perfeito funcionamento de meu novo coração.
Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante.
Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes.
Simples corte no dedo, sem inflamação, afligia-me como chaga aberta.
Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas.
 Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. E eu não tinha nada. Consultei especialistas, fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas imotivadas, gratuitas.
Meu coração  2 passava pela radiografia sem ser percebido.
Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo.
Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito.
 Ao tocá-lo, as partes se descolaram. Inútil restaurá-lo.
Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei a incisão novamente.
Talvez pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando.
Que fazer? E vale a pena fazer?
A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.
Carlos Drummond de Andrade, adaptado.

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